quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

You make me wanna feel fourteen again

Untouched
Leve
You make me wanna be somebody, some-body
                                                                               else.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Muito complicado isso de sentir. Até outro dia eu te buscava com urgência, colecionava seu sorriso torto numa mão, enquanto segurava tua indecência na outra. Você nunca foi de mentir, não pra mim. Fomos sinceros um com o outro, eu que não entendia que a minha necessidade do imediato não te atingia.

 Era você dizer "talvez amanhã" e contigo, treinava a desculpa que eu ia dar no trabalho pra sair mais cedo. Depois eu via tua mensagem, falando que tinha esquecido, ou que não havia confirmado, perguntando se podia ser na semana que vem. Eu nunca te contei que tinha alergia à fita do barbeador e que sempre ficava com o rosto vermelho e irritado por horas, pra você me ver e não pensar que andei descuidado. (quando eu andava)

Deixei você me contar que tinha um outro rapaz, que você encontrou no lugar onde trabalha, te ouvir dizer que ele era seu e falei, só pra mim, que ele era seu do jeito que eu queria ser mas nunca fui. Me pediu conselhos, veja só. "Não, eu não agiria assim. Eu te convidaria para o meu apartamento. Eu seria melhor que ele se estivesse aí, do seu lado.................................................................................... Calma, não precisa ficar assim, tão silenciosa. É uma brincadeira. Sim, estou brincando. Como vai aquela sua amiga que tem uma banda?"

Aí passaram as horas, eu trabalhei como deveria, respondia suas mensagens como as de qualquer outra pessoa (por tanto tempo não foi assim) e até te encontrei em alguns lugares. Você era tão solta, usava um batom apagado, muitos tons de amarelo. Pintou o cabelo, ficou como as mulheres da sua empresa. Eu podia ter previsto isso. Agora usa aquela marca, que elas todas usam, toma a mesma cerveja, ouve a mesma música.

Vi que minha urgência foi embora, assim, como aquele perfume que você usava e trocou por outro. Também troquei o barbeador. Na verdade, joguei fora. Cansei da irritação. Minhas colegas de trabalho dizem que fico mais charmoso, assim, barbudo. Eu gostava do seu perfume antigo. Tinha um cheiro de folha, eu não sentia em lugar nenhum além de você. Depois que te vi, agora, e te abracei, lembrei que essa fragrância é a mesma da moça que usa a mesa em frente à minha. A mesma da dona da lanchonete, a mesma da mulher do porteiro. Me acostumei e já nem sinto mais. Ficou comum.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Quando eu era pequena, comecei a aprender muitas coisas sobre doenças. Comprei um pacotinho de pastéis caseiros, numa mercearia, e passei duas semanas com infecção alimentar. Aprendi que coisas vencidas e feitas em meio à sujeira fazem mal à saúde. Nessa época eu estudava num colégio em que as crianças podiam passar o dia todo lá e eu passava. Almoçávamos e lanchávamos todos juntinhos num refeitório infantil. Inventei de não querer comer porque "a cozinha não é limpa" e só aceitei comer de novo depois que minha mãe me levou até o balcão e pediu que as cozinheiras me deixassem entrar.

Depois eu descobri que existia uma doença que matava em poucas horas, o tétano. Me disseram que você se cortava com algo enferrujado ou com madeira contaminada e morria pouco depois. Os parquinhos das praças nunca foram os mesmos.  Eu examinava tudo.

Hoje, tenho medo de tomar qualquer coisa com leite fora de casa, porque já tive intolerância à lactose. Não sinto nada, mas tenho muito medo. Não uso mais aquela saia que usei no dia que passei muito mal no Parque Rio Branco. Ela tá lavada e daqui a pouco vai fazer um ano. Não usei mais aquela calcinha pra sair de casa, só por precaução. Vai que era o tecido... Fiz ENEM 4 vezes e usando a mesma blusa, porque deu tudo certo quando eu usava a tal camiseta cinza. Precaução pro errado e pro certo.

E a saga continua.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

I'm one of those crazy girls

Eu sempre soube que não teria uma vida normal. Não parece certo, mas sempre achei que fosse morrer ainda adolescente num acidente ou de uma doença muito grave, pra virar notícia e fazer muita gente sofrer. Minha adolescência passou. Não fiz nada perigoso, então não morri em um acidente. Não saí muito de casa, então não peguei nenhuma doença. Hoje sei,
Vou enlouquecer.
Algum dia vai me faltar chão e vou gritar, quebrar tudo, arrancar os cabelos e desfalecer. Quando acordar, estarei numa fazenda. Longe de casa, com pessoas que eu não conheço. Vou estar vendo coisas, falando sozinha, não vou querer comer carne. Minha memória estará perfeita, apesar de não estar completamente organizada. 
As pessoas vão vir me visitar, amigos, filhos, primos, netos. Vou fotografar todos e pregar as fotos em uma parede. Depois vou sentar e contar histórias de como cada um parece com algum homem do meu passado. "Esse cabelo tem o mesmo tom daquele que eu namorei em 2009", "Esses dentes separados são como os de um namorado que eu tive quando era nova, ele tinha medo de usar aparelho e ficar feio", "esses olhos são como os de um professor que eu tive, que sempre elogiava minhas redações para a turma, e que eu sempre quis que fosse só meu". 
Meus netos vão sentar ao meu lado e me pedir para falar mais sobre aquelas histórias que eu inventava das fotos que tirava, e vou contar sobre o príncipe que me encontrou e me despertou do sono com um beijo, e  que depois virou um monstro de pés sujos, que sempre parecia não ter tomado banho direito e que cheirava mal, mas que eu amava. Digo a eles que carrego uma maldição, e assim acaba a história. Fantasia para eles, cicatrizes para mim. 
Quando ninguém for me visitar, sentarei perto de alguma árvore e olharei para cima, vendo as folhas balançarem. Vou imaginar, como num filme, meu espírito vendo meu corpo ser formado e Deus, ou quem quer que tenha sido, escrevendo com sangue em minha pele. "Vai viver para amar os homens do mundo. Vai sofrer por eles, cair de amores e esquecer no dia seguinte. Vai ter sentimentos imediatos, vai amar por anos e apenas por minutos, arrependimentos eternos, amores nunca realizados. Nunca vai se sentir completa sozinha, vai ficar viva enquanto puder amar." 
Vou enlouquecer por não ter conseguido amar o suficiente e nunca vou morrer, porque vou amar para sempre. Aí vou precisar sumir no mundo, porque ninguém aceitaria uma mulher vivendo por 200 ou 300 anos, iam querer fazer experiências e eu nunca fui chegada nesse tipo de coisa. Nunca entenderiam. 

domingo, 9 de novembro de 2014

a maquininha que roda o disco

gostei do gosto do café
na tua boca

toquei tuas veias
tuas listras
olhei teus olhos (tão redondos)
ah

ouvi tua voz
atrás da minha orelha
senti tua expiração
segurei tua mão

foi embora o café
o gosto ficou

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sobre ser contra o que a professora legal disse.

Outro dia, ouvi uma professora dizer que se uma pessoa estivesse andando pela rua e visse uma outra pessoa branca, nada seria anormal. A caminhada continuaria. Depois, ela afirmou que, se essa pessoa encontrasse uma pessoa negra, ela sairia correndo, ou teria muito medo de um assalto ou coisa pior. A Marília chata resolveu ficar calada, porque ela já se manifesta demais, mas escrever ela pode. 
Já estudei ao lado de uma favela, depois perto do centro da cidade e agora numa área dita "nobre". Em todos esses lugares, a brancura reinou e meu medo também. 
Quando eu estudava à tarde e fazia o 7°ano (8ª série), fiz uma prova de geografia em que nenhum aluno acertou a última questão. A questão dizia "Por que, mesmo depois do fim do Apartheid, os negros continuaram sendo vítimas de racismo?" e a resposta da professora foi: Simples! Porque os negros continuaram pobres!
E a população branca da favela? E todas as crianças que passam pela minha rua usando fardas de colégios públicos que são de maioria branca?  Os brancos também são pobres e não são poucos. Os brancos também sofrem racismo porque também "fazem" a violência. Eu tenho medo de pessoas brancas quando estou no ônibus, dentro do carro parada em um sinal, andando na rua, na parada de ônibus, dentro das áreas de convivência do meu próprio condomínio e em qualquer lugar em que eu não me sinta segura. 
Eu corro com medo do branco, sim. Se for amarelo, pior. E se isso for preconceito, significa que tenho racismo por brancos e negros? Ok.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Marília é observada

Quando eu tinha 10 anos, fui para uma escola nova e que era perto da casa da minha avó. Quando a aula acabava, eu almoçava lá e ficava esperando meus pais virem me pegar depois do trabalho - foi assim até meus 17 anos. Meus colegas de classe, em sua maioria, moravam perto da casa da minha avó e todos sabiam onde todos moravam (menos eu, porque sempre tive um péssimo senso de localização).
Eu era a novata do ano e muita gente falava comigo (isso foi diminuindo ao longo dos anos). Tinha um menino de quem eu gostava, mas a gente nunca se falava, havia aquele frio na barriga e um sentimento de morte que me impedia de ser gente na frente dele.
Como de costume, eu ia pro terraço da casa da minha avó para brincar. Não lembro se ainda brincava de barbie, só lembro de brincar sozinha com as plantas do jardim. Naquela época, o muro da casa era baixo e tinham dois portões, os dois "vazados", onde quem estava do lado de fora da casa via quem estava dentro e quem estava dentro via o que acontecia do lado de fora. Em um desses dias, olhei pro lado de fora e o menino que eu gostava estava lá, parado, do outro lado da rua, olhando pra mim. Nunca soube por quanto tempo, nem se ele iria falar comigo. Gritei. Mandei ele ir embora estudar. Gritei de novo. Ele foi embora, mas não sei se exatamente na hora que eu falei pra ele ir.
Depois desse dia, passei a achar que sempre havia alguém me observando. Tomando banho, brincando, almoçando com minha avó, jantando com meus pais, dormindo. O menino nunca mais apareceu pela rua da minha avó (pelo menos não que eu tenha visto). 9 anos se passaram e eu continuo achando que enquanto ando pela faculdade, pela rua, quando estou sozinha em casa ou quando vou ao shopping sempre tem um alguém me vigiando. A sensação é tão real que chego a sentir os olhares pousados em mim.
 Talvez isso tenha feito crescer minha timidez, minha ansiedade e meus ataques de pânico. Talvez eu devesse ter contado isso à psicóloga.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Marília anda de topic 06.

Esperei 10 minutos na parada e, logo que entrei na topic e sentei começou a chover. As pessoas corriam do lado de fora e eu agradecia minha sorte.
*plic* Fechei a janela.
*plic* Olhei pra porta, estava aberta, a água devia vir de lá.
*plic* A porta já estava fechada.
*plic* Olhei pra cima.
*plic plic* TINHAM GOTEIRAS NA TOPIC!
*plic plic plic plic plic plic* Droga! Levantei e fiquei olhando a água cair em cima da cadeira em que eu estava sentada (era muita água). Não tinha mais nenhum lugar vago e a minha viagem duraria uma hora, eu não queria ficar em pé. Abri a bolsa e minha ideia brilhante surgiu. Arranquei uma folha de caderno, enxuguei a cadeira e abri meu guarda-chuva! As pessoas da topic falaram "não acredito nisso, hahaha". Sentei e fiquei segurando minha proteção. 
A água batia com muita força e eu deduzi que devia ser muitos buracos no teto. Quando consegui olhar, entendi. Era uma parte rachada que estava coberta por fita isolante, que não isolava nada. Eu continuava segurando meu guarda-chuva, quando ouvi um senhor falar "deveriam tirar uma foto e colocar na internet, isso é piada!"
Só queria dizer que: se você entrou na topic e tinha uma criatura, lá dentro, usando um guarda-chuva, era eu. Oi.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

17/03/2014

Faz muito tempo que eu moro longe e, desde que comecei a sair sozinha, sempre ia e voltava sozinha. Não tinha carona ou alguém que morasse perto, sempre fui só eu. Durante o período em que eu passava sozinha, me habituei a prestar atenção nas pessoas. Afinal, sozinha, realmente, eu não estava. Eu via pessoas familiares numa multidão de desconhecidos, e logo depois elas eram desconhecidas de novo.

Daí que, dessa vez, me ocorreu algo diferente. Não fui a observadora, fui observada. Desci do ônibus e comecei a caminhar. Passei por uns policiais, alguns gatos dormindo e comecei a olhar as pedras avermelhadas do chão. Não sei por quanto tempo andei até perceber, mas tinha uma senhora atrás de mim. Ela andava sorrindo e me alcançou quando atravessei a rua. Ela passou para a minha frente e disse:
- Ele tava te paquerando
E eu respondi:
- Quem?
Ela continuou caminhando rápido e parecia um pouco perdida.
- O policial. Ele andou atrás de você e ficou te olhando muito, ficou todo sem graça quando me viu, porque eu percebi.
Eu tinha visto o policial, mas não tinha percebido nada daquilo.
- Foi? Não percebi...
- Foi sim, ele olhou muito pra você
- Ah...
Eu queria muito chegar em casa e tentei parecer realmente apressada, mas aí ela falou de novo:
- Onde a gente pega a topique pra Pernambuco?
- Oi?
- Onde a gente pega a topique pra Pernambuco?
- Pernambuco?
- É...
Não tinha ninguém perto. Comecei a ficar assustada.
- Desculpa, eu não sei...

"Essa mulher quer ir pra Pernambuco daqui? Ela sabe onde a gente tá?" Pensei.

Já ia responder que não sabia do que ela tava falando, quando ela falou:

- É que eu sei que aqui a gente pega uma topique, que tem uma topique que anda aqui.

Estávamos dentro do Campus do Pici. Lá, existe ônibus e topiques que levam os alunos da entrada ao centro do campus. Achei que era disso que ela tava falando. Então disse:

- Olha, ali do outro lado tem uma parada, lá passam as topiques.
- Mas é que eu sei que a gente pega uma topique e para no meio do caminho pra pegar outra, que vai pra Pernambuco.
- Olha, eu realmente não sei disso... Sei que ali passam as topiques, mas como não estudo aqui, não sei informar.
- Ta bem.

Ela foi embora. Era uma senhora de mais de 50 anos, eu acho. Usava um vestido vermelho um pouco velho, uma bolsa e não tinha todos os dentes. Aí foi a hora da minha cabeça começar a funcionar. Na região Norte, existe uma lenda que conta sobre uma jovem que, no dia do seu aniversário, pega um táxi no cemitério e pede para que o taxista a leve pra casa. Quando chegam à casa dela, descobrem que ela está morta, e que quem entrou no táxi era um fantasma.

Eu não era nenhuma taxista, mas uma mulher me parou num lugar onde não tinha ninguém perto e perguntou onde ela deveria pegar uma topique para ir para um estado que fica a uns 775 km daqui. Só por precaução, fui embora sem olhar pra trás.