Vou enlouquecer.
Algum dia vai me faltar chão e vou gritar, quebrar tudo, arrancar os cabelos e desfalecer. Quando acordar, estarei numa fazenda. Longe de casa, com pessoas que eu não conheço. Vou estar vendo coisas, falando sozinha, não vou querer comer carne. Minha memória estará perfeita, apesar de não estar completamente organizada.
As pessoas vão vir me visitar, amigos, filhos, primos, netos. Vou fotografar todos e pregar as fotos em uma parede. Depois vou sentar e contar histórias de como cada um parece com algum homem do meu passado. "Esse cabelo tem o mesmo tom daquele que eu namorei em 2009", "Esses dentes separados são como os de um namorado que eu tive quando era nova, ele tinha medo de usar aparelho e ficar feio", "esses olhos são como os de um professor que eu tive, que sempre elogiava minhas redações para a turma, e que eu sempre quis que fosse só meu".
Meus netos vão sentar ao meu lado e me pedir para falar mais sobre aquelas histórias que eu inventava das fotos que tirava, e vou contar sobre o príncipe que me encontrou e me despertou do sono com um beijo, e que depois virou um monstro de pés sujos, que sempre parecia não ter tomado banho direito e que cheirava mal, mas que eu amava. Digo a eles que carrego uma maldição, e assim acaba a história. Fantasia para eles, cicatrizes para mim.
Quando ninguém for me visitar, sentarei perto de alguma árvore e olharei para cima, vendo as folhas balançarem. Vou imaginar, como num filme, meu espírito vendo meu corpo ser formado e Deus, ou quem quer que tenha sido, escrevendo com sangue em minha pele. "Vai viver para amar os homens do mundo. Vai sofrer por eles, cair de amores e esquecer no dia seguinte. Vai ter sentimentos imediatos, vai amar por anos e apenas por minutos, arrependimentos eternos, amores nunca realizados. Nunca vai se sentir completa sozinha, vai ficar viva enquanto puder amar."
Vou enlouquecer por não ter conseguido amar o suficiente e nunca vou morrer, porque vou amar para sempre. Aí vou precisar sumir no mundo, porque ninguém aceitaria uma mulher vivendo por 200 ou 300 anos, iam querer fazer experiências e eu nunca fui chegada nesse tipo de coisa. Nunca entenderiam.