segunda-feira, 16 de maio de 2016

A história

Eu sempre pensei que a tristeza me fizesse escrever, como algum tipo de caneta que eu recarregava com lágrimas não derramadas, ou algo parecido. No entanto, depois que as lágrimas deixaram de vir por qualquer motivo, percebi uma necessidade de voltar e levar algo adiante.

Voltei depois de passar quase um ano sem pensar em escrever dessa maneira, por motivos variados como o excesso de trabalho, dor nos ombros, preguiça e ansiedade.

Em 2013 fui diagnosticada com ansiedade generalizada, coisa que só fui entender em 2015. Uma série de acontecimentos fez com que eu me sentisse a última folha seca de uma árvore velha e doente, até o dia que caí.

De acordo com o blog do Doutor Drauzio Varella, "o transtorno da ansiedade generalizada (TAG), segundo o manual de classificação de doenças mentais (DSM.IV), é um distúrbio caracterizado pela “preocupação excessiva ou expectativa apreensiva”, persistente e de difícil controle, que perdura por seis meses no mínimo e vem acompanhado por três ou mais dos seguintes sintomas: inquietação, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, tensão muscular e perturbação do sono." 

Para mim, a ansiedade era um monstro enorme que me esmagava, sugava minhas forças, minha energia, alegria e vontade de viver. Em alguns momentos eu só queria realmente estar morta. Entretanto, ter conhecimento sobre essa doença me fez entender muitas coisas do passado, como porque eu chorava sem motivo, não conseguia me concentrar para estudar, passava mal antes de fazer provas ou ir para festas e como não conseguia respirar quando certas coisas aconteciam. Muitas vezes, fui para hospitais, fiz exames e os médicos não sabiam explicar o que eu tinha.

Quando fui diagnosticada, a psicóloga era bem jovem e isso me incomodava. Ela dizia que o que eu tinha era "a nova depressão" e que eu deveria continuar indo vê-la. Acontece que não fiquei satisfeita com ela e parei de ir. Um momento terrível da minha vida chegou logo depois disso e me vi envolta em uma situação que me deixaria com cicatrizes mentais para sempre, ou, pelo menos, durante um bom tempo (porque elas ainda não sumiram).

Depois de uma pequena libertação, procurei outros médicos e iniciei um tratamento. Eu estava com dificuldade para estudar, sair de casa e me relacionar com as pessoas. Tudo era motivo para eu ter um ataque e achar que ia morrer. Precisei tomar um remédio com tarja preta, minha primeira droga pesada. Rivotril era meu melhor amigo, não andávamos separados e eu temia pelo dia em que ele não estivesse mais comigo. No entanto, ele não me fazia bem, só me fazia dormir muito e me deixava fora do ar por alguns momentos. Algum dia, não lembro como, entendi que precisava de algo que realmente me ajudasse, e procurei ajuda para me livrar dele.

Conheci uma médica que me recebeu da melhor maneira possível (e hoje tem um lugar cheio de gatos, almofadas e chocolates, no meu coração) e ouviu tudo o que eu precisava dizer. Mesmo não sendo psicóloga ela me acolheu. Disse que eu precisava de tratamento com remédios, e que tudo ia melhorar. Acreditei. Ela me passou um antidepressivo e saí do consultório muito confiante. Tentei marcar uma consulta de retorno e as atendentes disseram que não sabiam como iam fazer, porque a médica estava grávida e logo ia entrar de licença.

Voltei para casa e, no dia seguinte, comecei a tomar o remédio. Ele me derrubou. Eu nunca tinha me sentido tão mal na vida. Procurei ajuda em fóruns online e as pessoas me diziam para aguentar e continuar tomando, que eu ia acostumar. Minha mãe havia viajado e meu pai estava trabalhando, eu passei 4 dias praticamente sozinha em casa, levantando só para comer e ir ao banheiro. Resolvi parar. Experimentei tratamentos alternativos, fazendo exercícios e coisas espirituais. Por um tempo, achei que as coisas estavam se acalmando, mas eu ainda era a pessoa triste que lembrava de sempre ter sido.

Uma nova fase da minha vida começou e entrei para o mercado de trabalho. Não seria fácil trabalhar e estudar ao mesmo tempo, mas eu achava que isso ocuparia minha mente e me faria esquecer da ansiedade. Pelo contrário. Piorei muito e já não queria sair de casa. Achava que ia morrer dentro do ônibus, tomando banho, conversando com meus amigos e trabalhando. Tentei marcar consulta com a médica, mas ela ainda estava de licença.

Procurei outro médico e expliquei que eu não queria mais tomar Rivotril, não tinha conseguido me livrar dele, não me sentia confiante. O médico não me ouviu e me empurrou uma receita de mais 4 meses com aquele remédio. Cheguei a pensar que passaria o resto da vida assim.

O ano de 2016 chegou e eu só desejei conseguir viver tudo com calma, sem desastres. Pensei em procurar terapias alternativas novamente, mas minha cabeça dizia que a religião não poderia me ajudar. Liguei para o consultório da médica que eu havia gostado e ela, finalmente, estava atendendo novamente.

Ela me recebeu com muita calma e perguntou sobre tudo o que eu tinha me queixado no ano passado. Percebi que algumas coisas já haviam se resolvido, mas minha cabeça estava cada vez mais confusa. Eu não conseguia mais estudar, meu desempenho no trabalho estava péssimo e as crises eram constantes. Ela me passou um remédio mais fraco, a fluoxetina, e aceitei começar um novo tratamento.

Com um mês de fluoxetina minha mente já não tinha a neblina de antes. Eu conseguia pensar, estudar e tomar decisões corretamente. Também conseguia lidar melhor com as pessoas. Voltei para a médica e ela me parabenizou pelo desempenho. Disse que logo eu poderia experimentar viver normalmente e sem tomar nenhuma droga. No momento, estou esperando por essa vida.

Hoje, não sinto mais a tristeza que foi minha companheira por 10 anos ou mais. Consegui ver com clareza todos os pontos que vivi que me fizeram ter transtorno de ansiedade, ou piorá-lo. Tenho consciência da doença que tenho e sei que um dia vou conseguir controlá-la. Não tomo Rivotril há 3 meses e me sinto outra pessoa. Consigo acordar feliz e manter a felicidade por um período longo, e ela não é substituída por tristeza, mas sim por um novo tipo de sentimento que descobri. Ainda não sei como chamá-lo, mas é algo próximo da aceitação de si mesmo.

Decidi escrever isso tudo porque, durante esse período, vivi coisas horríveis e conheci pessoas que passam e passaram pelo mesmo que eu, ou pior. Consegui encontrar o caminho do controle e isso fez toda a diferença para a pessoa que sou hoje. Me sinto uma pessoa nova e me descubro cada vez mais. Hoje, em 2016, consigo ouvir músicas tristes e não ser invadida por qualquer sentimento ruim. Acredito que consegui juntar os pedaços de mim e, aos poucos, tudo vai se completando na minha cabeça.