terça-feira, 17 de junho de 2014

Marília é observada

Quando eu tinha 10 anos, fui para uma escola nova e que era perto da casa da minha avó. Quando a aula acabava, eu almoçava lá e ficava esperando meus pais virem me pegar depois do trabalho - foi assim até meus 17 anos. Meus colegas de classe, em sua maioria, moravam perto da casa da minha avó e todos sabiam onde todos moravam (menos eu, porque sempre tive um péssimo senso de localização).
Eu era a novata do ano e muita gente falava comigo (isso foi diminuindo ao longo dos anos). Tinha um menino de quem eu gostava, mas a gente nunca se falava, havia aquele frio na barriga e um sentimento de morte que me impedia de ser gente na frente dele.
Como de costume, eu ia pro terraço da casa da minha avó para brincar. Não lembro se ainda brincava de barbie, só lembro de brincar sozinha com as plantas do jardim. Naquela época, o muro da casa era baixo e tinham dois portões, os dois "vazados", onde quem estava do lado de fora da casa via quem estava dentro e quem estava dentro via o que acontecia do lado de fora. Em um desses dias, olhei pro lado de fora e o menino que eu gostava estava lá, parado, do outro lado da rua, olhando pra mim. Nunca soube por quanto tempo, nem se ele iria falar comigo. Gritei. Mandei ele ir embora estudar. Gritei de novo. Ele foi embora, mas não sei se exatamente na hora que eu falei pra ele ir.
Depois desse dia, passei a achar que sempre havia alguém me observando. Tomando banho, brincando, almoçando com minha avó, jantando com meus pais, dormindo. O menino nunca mais apareceu pela rua da minha avó (pelo menos não que eu tenha visto). 9 anos se passaram e eu continuo achando que enquanto ando pela faculdade, pela rua, quando estou sozinha em casa ou quando vou ao shopping sempre tem um alguém me vigiando. A sensação é tão real que chego a sentir os olhares pousados em mim.
 Talvez isso tenha feito crescer minha timidez, minha ansiedade e meus ataques de pânico. Talvez eu devesse ter contado isso à psicóloga.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Marília anda de topic 06.

Esperei 10 minutos na parada e, logo que entrei na topic e sentei começou a chover. As pessoas corriam do lado de fora e eu agradecia minha sorte.
*plic* Fechei a janela.
*plic* Olhei pra porta, estava aberta, a água devia vir de lá.
*plic* A porta já estava fechada.
*plic* Olhei pra cima.
*plic plic* TINHAM GOTEIRAS NA TOPIC!
*plic plic plic plic plic plic* Droga! Levantei e fiquei olhando a água cair em cima da cadeira em que eu estava sentada (era muita água). Não tinha mais nenhum lugar vago e a minha viagem duraria uma hora, eu não queria ficar em pé. Abri a bolsa e minha ideia brilhante surgiu. Arranquei uma folha de caderno, enxuguei a cadeira e abri meu guarda-chuva! As pessoas da topic falaram "não acredito nisso, hahaha". Sentei e fiquei segurando minha proteção. 
A água batia com muita força e eu deduzi que devia ser muitos buracos no teto. Quando consegui olhar, entendi. Era uma parte rachada que estava coberta por fita isolante, que não isolava nada. Eu continuava segurando meu guarda-chuva, quando ouvi um senhor falar "deveriam tirar uma foto e colocar na internet, isso é piada!"
Só queria dizer que: se você entrou na topic e tinha uma criatura, lá dentro, usando um guarda-chuva, era eu. Oi.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

17/03/2014

Faz muito tempo que eu moro longe e, desde que comecei a sair sozinha, sempre ia e voltava sozinha. Não tinha carona ou alguém que morasse perto, sempre fui só eu. Durante o período em que eu passava sozinha, me habituei a prestar atenção nas pessoas. Afinal, sozinha, realmente, eu não estava. Eu via pessoas familiares numa multidão de desconhecidos, e logo depois elas eram desconhecidas de novo.

Daí que, dessa vez, me ocorreu algo diferente. Não fui a observadora, fui observada. Desci do ônibus e comecei a caminhar. Passei por uns policiais, alguns gatos dormindo e comecei a olhar as pedras avermelhadas do chão. Não sei por quanto tempo andei até perceber, mas tinha uma senhora atrás de mim. Ela andava sorrindo e me alcançou quando atravessei a rua. Ela passou para a minha frente e disse:
- Ele tava te paquerando
E eu respondi:
- Quem?
Ela continuou caminhando rápido e parecia um pouco perdida.
- O policial. Ele andou atrás de você e ficou te olhando muito, ficou todo sem graça quando me viu, porque eu percebi.
Eu tinha visto o policial, mas não tinha percebido nada daquilo.
- Foi? Não percebi...
- Foi sim, ele olhou muito pra você
- Ah...
Eu queria muito chegar em casa e tentei parecer realmente apressada, mas aí ela falou de novo:
- Onde a gente pega a topique pra Pernambuco?
- Oi?
- Onde a gente pega a topique pra Pernambuco?
- Pernambuco?
- É...
Não tinha ninguém perto. Comecei a ficar assustada.
- Desculpa, eu não sei...

"Essa mulher quer ir pra Pernambuco daqui? Ela sabe onde a gente tá?" Pensei.

Já ia responder que não sabia do que ela tava falando, quando ela falou:

- É que eu sei que aqui a gente pega uma topique, que tem uma topique que anda aqui.

Estávamos dentro do Campus do Pici. Lá, existe ônibus e topiques que levam os alunos da entrada ao centro do campus. Achei que era disso que ela tava falando. Então disse:

- Olha, ali do outro lado tem uma parada, lá passam as topiques.
- Mas é que eu sei que a gente pega uma topique e para no meio do caminho pra pegar outra, que vai pra Pernambuco.
- Olha, eu realmente não sei disso... Sei que ali passam as topiques, mas como não estudo aqui, não sei informar.
- Ta bem.

Ela foi embora. Era uma senhora de mais de 50 anos, eu acho. Usava um vestido vermelho um pouco velho, uma bolsa e não tinha todos os dentes. Aí foi a hora da minha cabeça começar a funcionar. Na região Norte, existe uma lenda que conta sobre uma jovem que, no dia do seu aniversário, pega um táxi no cemitério e pede para que o taxista a leve pra casa. Quando chegam à casa dela, descobrem que ela está morta, e que quem entrou no táxi era um fantasma.

Eu não era nenhuma taxista, mas uma mulher me parou num lugar onde não tinha ninguém perto e perguntou onde ela deveria pegar uma topique para ir para um estado que fica a uns 775 km daqui. Só por precaução, fui embora sem olhar pra trás.