Muito complicado isso de sentir. Até outro dia eu te buscava com urgência, colecionava seu sorriso torto numa mão, enquanto segurava tua indecência na outra. Você nunca foi de mentir, não pra mim. Fomos sinceros um com o outro, eu que não entendia que a minha necessidade do imediato não te atingia.
Era você dizer "talvez amanhã" e contigo, treinava a desculpa que eu ia dar no trabalho pra sair mais cedo. Depois eu via tua mensagem, falando que tinha esquecido, ou que não havia confirmado, perguntando se podia ser na semana que vem. Eu nunca te contei que tinha alergia à fita do barbeador e que sempre ficava com o rosto vermelho e irritado por horas, pra você me ver e não pensar que andei descuidado. (quando eu andava)
Deixei você me contar que tinha um outro rapaz, que você encontrou no lugar onde trabalha, te ouvir dizer que ele era seu e falei, só pra mim, que ele era seu do jeito que eu queria ser mas nunca fui. Me pediu conselhos, veja só. "Não, eu não agiria assim. Eu te convidaria para o meu apartamento. Eu seria melhor que ele se estivesse aí, do seu lado.................................................................................... Calma, não precisa ficar assim, tão silenciosa. É uma brincadeira. Sim, estou brincando. Como vai aquela sua amiga que tem uma banda?"
Aí passaram as horas, eu trabalhei como deveria, respondia suas mensagens como as de qualquer outra pessoa (por tanto tempo não foi assim) e até te encontrei em alguns lugares. Você era tão solta, usava um batom apagado, muitos tons de amarelo. Pintou o cabelo, ficou como as mulheres da sua empresa. Eu podia ter previsto isso. Agora usa aquela marca, que elas todas usam, toma a mesma cerveja, ouve a mesma música.
Vi que minha urgência foi embora, assim, como aquele perfume que você usava e trocou por outro. Também troquei o barbeador. Na verdade, joguei fora. Cansei da irritação. Minhas colegas de trabalho dizem que fico mais charmoso, assim, barbudo. Eu gostava do seu perfume antigo. Tinha um cheiro de folha, eu não sentia em lugar nenhum além de você. Depois que te vi, agora, e te abracei, lembrei que essa fragrância é a mesma da moça que usa a mesa em frente à minha. A mesma da dona da lanchonete, a mesma da mulher do porteiro. Me acostumei e já nem sinto mais. Ficou comum.
Marília, tu escreve bem para caralio. É muito bem escrito e é tudo muito real. Virei fã do teu blog.
ResponderExcluirAh, talvez tu goste do meu blog também. Só um palpite mesmo. Se tu quiser, o link é esse -> http://ideiasdecantodeparede.blogspot.com.br/
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