Chegou aqui em casa e pediu chá. Sempre preferi que me dissessem o que queriam, ao invés de esperarem que eu adivinhasse ou fizesse uma lista do que tinha a oferecer. Ela usava um poncho vermelho e um vestido cinza (os ponchos estão na moda por aqui, no meu tempo de agora) e uns sapatinhos pretos. Trouxe consigo um livro velho, cheio de figuras. Era um daqueles que você e eu usamos no colégio, muito texto, exercícios, ilustrações e fotografias. Perguntou se eu ainda escrevia e respondi que não, "Guardo tudo aqui, menina" e apontei para a minha cabeça.
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Depois que tomamos chá, perguntei o que tinha acontecido. Ela me contou que já não usava aquele livro, mas que ainda lembrava de tudo. Me disse que estudou a metade de sua vida em um colégio pequeno, com poucos alunos e que todos se conheciam. Ela era muito apegada aos professores e, em uma aula de literatura, seu professor preferido a apresentou a Charles Baudelaire e mostrou, naquele livro, o seu "Autorretrato".
Ela fez questão de lavar a pouca louça que sujamos, mas me pediu para ficar junto dela, porque "ficar sozinha não era algo confortável".
Fiquei olhando para a figura do "Autorretrato" e ela me perguntou se eu achava familiar. Respondi que não. "Eu nunca tinha ouvido falar dele, do Baudelaire, mas... Coloquei os olhos nessa pintura e senti que sabia da existência daquilo desde sempre." Depois de ouvir isso, perguntei o que ela realmente queria me contar e tentei absorver completamente as palavras.
"Eu morava com meus pais, claro, porque deveria ter só uns 13 ou 14 anos. Eles sempre iam dormir muito cedo e eu ficava deitada, na sala, vendo televisão. Na maioria das vezes, meu pai adormecia deitado na rede, e eu ficava logo abaixo, no sofá. Também sempre tive medo do escuro e, talvez por sempre procurar ver coisas onde a luz não me deixava enxergar nada, um dia encontrei aquela figura do livro. Não uma pessoa, um fantasma, mas a pintura. As pinceladas, os riscos e os olhos marcantes. Aquele ser, que a pintura revelou, apareceu pra mim, no meu antigo apartamento, durante muito tempo. Eu não sei porque, ele nunca me falou nada, só estava ali e eu sentia sua presença. Eu não conseguia me mexer, quando ele aparecia, nem falar com ele. Éramos nós dois, tarde da noite, numa cidadezinha qualquer, sem explicação alguma. Depois de um tempo ele deixou de aparecer. Vim aqui para pedir que você guarde o livro para mim."
É claro que eu aceitei ficar com o livro, era algo tão simples, não é? Depois de tudo o que sempre aconteceu na minha vida guardar um livro não seria um problema.
- Queria pedir só mais uma coisa.
- Diga, meu bem.
- Se ele aparecer para você...
- Você sabe que isso é possível, porque eu lido com esse tipo de coisa desde que nasci e
- Se ele aparecer diga que eu sinto falta dele, diga para voltar a me encontrar, porque passo as noites sozinha, desde então.
- Eu, eu direi, sim, minha querida.
Nos abraçamos e ela se foi. Ele nunca apareceu para mim. Não até agora.
