terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre pessoas em hospitais

Algumas muitas vezes por ano eu apareço pelos hospitais de Fortaleza, tomo injeções, espero umas mil horas, sinto frio, enfim. Acontece que, raramente, acontecem coisas que me fazem agradecer estar lá para ter presenciado. Hoje foi um desses dias.
Enquanto eu esperava, na recepção, para ser atendida, uma senhora conversava com o atendente, afirmando que estava passando mal e que queria fazer logo o exame dela.
- Certo, senhora, me dê o cartão do seu plano e a sua identidade.
- Não trouxe a identidade, ficou em casa.
- A senhora não sabe seu rg decorado?
- Não, não sei.
- E o cpf a senhora trouxe?
- Não ando com cpf.
- Mas a senhora não sabe decorado?
- Ah, sei sim.
- Certo, então me diga.
- Mas eu não vou dizer
- E como a senhora espera que eu faça seu cadastro sem algum documento?
- O cpf é sigiloso, não vou falar aqui pra todo mundo ouvir.
- Certo, senhora, então anote pra mim.

Ela anotou, mas escreveu tudo de uma maneira que o rapaz não conseguiu entender. Só deu certo depois que ela reescreveu pela quinta ou sexta vez, então ela saiu do balcão e sentou na primeira cadeira que encontrou.
Minha vez ainda não tinha chegado quando a ouvi falando com o rapaz da radiologia:
- Eu tô passando mal, não vão me atender?
- Qual o exame?
- Raio-x
- Senhora, não estamos realizando raio-x aqui hoje. A máquina não está na sala.
- Como assim? Então porque abriram meu atendimento?

Ela levantou e foi falar com o mesmo rapaz que a tinha atendido na recepção:
- Olha, eu quero cancelar meu atendimento.
- Por que, senhora?
- Porque não tão fazendo raio-x e eu tô aqui passando mal, isso é um descaso.
- Certo, senhora, mas fazer ou não o raio-x não ia deixar a senhora melhor ou pior. É só um exame.
- Que falta de consideração, quero cancelar o atendimento, vou para outro hospital. Não posso fazer meus outros exames aqui?
- A senhora está com a requisição?
- Deixei no carro
- Então tem que ir buscar...
- Não, quero só cancelar o atendimento.
- Certo, vou precisar da sua carteirinha.

Ela cancelou o atendimento, pegou sua chave (enrolada em durex), seu talão de cheques e sua bolsa e saiu do hospital. No fundo do coração de todos ali presentes ouviu-se aplausos.

E assim encerra-se a história da senhorinha mais enjoada e sem educação, com os profissionais que iriam trabalhar para ela, que eu já conheci.

domingo, 1 de março de 2015

O homem do infinito

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Abriu os olhos e viu que não estava em sua cama, ou em cama alguma, apenas flutuava. Era um infinito, uma mistura de vazio e matéria, uma solidão que ele nunca havia experimentado. Viu-se viajando pelo espaço. Passou pelos planetas em chamas, o cinturão de asteroides, viu o brilho de estrelas já mortas, sentiu o cheiro do que não soube explicar, viu tudo o que jamais poderia explicar ou entender e, então, ouviu a respiração cansada daquele outro ser. Imediatamente quis voltar para casa, mas ele podia ver sua casa dali e aquele não era o lugar para o qual ele deveria correr, então viu que não conseguia correr e apenas fechou os olhos.

Apertou o máximo que pôde, sentiu as rugas de sua testa arderem, sentiu dor, perdeu o controle dos músculos e, então, viu-se encarando o que antes ele achou que não poderia. Era um ser humano, sim, porém tinha um brilho apagado, uma dor visível, a pele seca, escamando, as cores dos olhos estavam misturadas: globo ocular, iris e pupila eram um só tom de preto, grafite, talvez. As mãos seguravam um tipo de manivela, mas não parecia haver distinção de onde começavam os membros e onde começava o metal. Os cabelos eram longos, misturados à cor do infinito.

Quando retomou o controle de seus movimentos, viu que o ser também o encarava, de boca aberta, mas nenhum som saía, apenas o da respiração cansada. Ele tinha consciência de que estavam, os dois, no vazio, mas ainda sim sentia que conseguia respirar. Resolveu que deveria perguntar algo, já que dali não sairia.

- Quem é você?
- Não deveriam haver pessoas aqui, neste lado da dimensão.
- Eu não sei porque estou aqui, mas e você?
- Fui condenado, estarei aqui até você morrer e até muito depois disso.
- Condenado? Por quem?
- Por Deus. Eu não sabia, mas o prejudiquei. Atrapalhei seus planos, eu... Eu tinha conhecimento demais,
- Por Deus? Como assim?
- Eu tentei parar o tempo. Parei, na verdade.
- Isso é possível?
- Ah, sim. Muitas pessoas já conseguiram e
- "Pessoas"? Você é uma pessoa?
- Eu sou, eu era. Como eu dizia... Muitas pessoas já conseguiram, a Terra guarda esse conhecimento em livros, escrituras, pinturas em cavernas... Mas poucas pessoas se atrevem, porque a maioria foi punida com a morte.
- Mas... Não entendo. O que acontece quando alguém para o tempo?
- Deus perde o controle sobre as coisas, então coisas horríveis acontecem na Terra.
- Nunca imaginei que fosse assim. Deus não tem o controle de tudo?
- Ele tem, mas o tempo é à parte.
- Que tipo de coisas horríveis?
- Catástrofes ambientais, pessoas que cometem atrocidades, como Hitler.
- Entendi... E pra que alguém para o tempo?
- Para se livrar de algo. A mulher que eu amava estava presa, foi raptada por um rei e eu não tinha como salvá-la, até descobrir como parar o tempo. Quando consegui, tirei-a da masmorra, levei-a para uma ilha de clima bom e boas condições de vida e depois descongelei o tempo, para me juntar a ela, mas vi que escolhi a hora errada para isso. Nunca consegui voltar ao encontro dela.
- Por que?
- Porque fui condenado. Vim parar aqui.
- O que é essa manivela?
- É assim que mantenho o tempo funcionando. Faço a manutenção da translação e rotação da Terra.
- Entendi.
 - Olha, acho que você está sumindo...
- Devo estar acordando, sinto meus braços formigarem...
- Então adeus, meu caro.
- Espere! Me diga... Você disse que escolheu a hora errada para parar o tempo... Que hora foi essa?
- Foi quando o filho dele foi condenado. O filho de Deus.
- Não acredito...
- As coisas na Terra deveriam estar melhores, mas os homens mataram o filho dele porque ele não estava lá, não estava com o controle das coisas. Foi culpa minha. Por isso estou aqui. Avise a eles para não pararem mais as horas, explique, diga para não...

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Elas lhe disseram que foram três dias de febre e devaneios. Ele levantou, estava muito suado, as mãos vermelhas, caminhou até a janela e olhou o mundo. Acreditou, então, no que o homem do infinito havia lhe dito. Desejou não ter acordado.