domingo, 1 de março de 2015

O homem do infinito

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Abriu os olhos e viu que não estava em sua cama, ou em cama alguma, apenas flutuava. Era um infinito, uma mistura de vazio e matéria, uma solidão que ele nunca havia experimentado. Viu-se viajando pelo espaço. Passou pelos planetas em chamas, o cinturão de asteroides, viu o brilho de estrelas já mortas, sentiu o cheiro do que não soube explicar, viu tudo o que jamais poderia explicar ou entender e, então, ouviu a respiração cansada daquele outro ser. Imediatamente quis voltar para casa, mas ele podia ver sua casa dali e aquele não era o lugar para o qual ele deveria correr, então viu que não conseguia correr e apenas fechou os olhos.

Apertou o máximo que pôde, sentiu as rugas de sua testa arderem, sentiu dor, perdeu o controle dos músculos e, então, viu-se encarando o que antes ele achou que não poderia. Era um ser humano, sim, porém tinha um brilho apagado, uma dor visível, a pele seca, escamando, as cores dos olhos estavam misturadas: globo ocular, iris e pupila eram um só tom de preto, grafite, talvez. As mãos seguravam um tipo de manivela, mas não parecia haver distinção de onde começavam os membros e onde começava o metal. Os cabelos eram longos, misturados à cor do infinito.

Quando retomou o controle de seus movimentos, viu que o ser também o encarava, de boca aberta, mas nenhum som saía, apenas o da respiração cansada. Ele tinha consciência de que estavam, os dois, no vazio, mas ainda sim sentia que conseguia respirar. Resolveu que deveria perguntar algo, já que dali não sairia.

- Quem é você?
- Não deveriam haver pessoas aqui, neste lado da dimensão.
- Eu não sei porque estou aqui, mas e você?
- Fui condenado, estarei aqui até você morrer e até muito depois disso.
- Condenado? Por quem?
- Por Deus. Eu não sabia, mas o prejudiquei. Atrapalhei seus planos, eu... Eu tinha conhecimento demais,
- Por Deus? Como assim?
- Eu tentei parar o tempo. Parei, na verdade.
- Isso é possível?
- Ah, sim. Muitas pessoas já conseguiram e
- "Pessoas"? Você é uma pessoa?
- Eu sou, eu era. Como eu dizia... Muitas pessoas já conseguiram, a Terra guarda esse conhecimento em livros, escrituras, pinturas em cavernas... Mas poucas pessoas se atrevem, porque a maioria foi punida com a morte.
- Mas... Não entendo. O que acontece quando alguém para o tempo?
- Deus perde o controle sobre as coisas, então coisas horríveis acontecem na Terra.
- Nunca imaginei que fosse assim. Deus não tem o controle de tudo?
- Ele tem, mas o tempo é à parte.
- Que tipo de coisas horríveis?
- Catástrofes ambientais, pessoas que cometem atrocidades, como Hitler.
- Entendi... E pra que alguém para o tempo?
- Para se livrar de algo. A mulher que eu amava estava presa, foi raptada por um rei e eu não tinha como salvá-la, até descobrir como parar o tempo. Quando consegui, tirei-a da masmorra, levei-a para uma ilha de clima bom e boas condições de vida e depois descongelei o tempo, para me juntar a ela, mas vi que escolhi a hora errada para isso. Nunca consegui voltar ao encontro dela.
- Por que?
- Porque fui condenado. Vim parar aqui.
- O que é essa manivela?
- É assim que mantenho o tempo funcionando. Faço a manutenção da translação e rotação da Terra.
- Entendi.
 - Olha, acho que você está sumindo...
- Devo estar acordando, sinto meus braços formigarem...
- Então adeus, meu caro.
- Espere! Me diga... Você disse que escolheu a hora errada para parar o tempo... Que hora foi essa?
- Foi quando o filho dele foi condenado. O filho de Deus.
- Não acredito...
- As coisas na Terra deveriam estar melhores, mas os homens mataram o filho dele porque ele não estava lá, não estava com o controle das coisas. Foi culpa minha. Por isso estou aqui. Avise a eles para não pararem mais as horas, explique, diga para não...

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Elas lhe disseram que foram três dias de febre e devaneios. Ele levantou, estava muito suado, as mãos vermelhas, caminhou até a janela e olhou o mundo. Acreditou, então, no que o homem do infinito havia lhe dito. Desejou não ter acordado.

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