segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

(história ainda sem nome) - Capítulo 01: Nova língua, novo país, tudo novo!

Já era certo que eu iria morar no Brasil. Fiquei sabendo aos 16 anos e, aos 18, estava tudo pronto. Eu já falava um pouco de português e já tinha noção do que iria fazer quando chegasse à cidade nova. O nome dela, Fortaleza, me trazia uma sensação de segurança (aprendi, nas aulas de português, que "fortaleza" significava algo bem protegido).

Meus pais ficaram sabendo que, naquela cidade, o comércio era algo promissor. Ao contrário de mim, eles não estavam muito preocupados em aprender a língua local, já que eu estava fazendo isso. O plano era que, ao sair da Coreia do Sul, eu ajudasse a assumir o negócio da família: uma grande loja do que no Brasil chamam de "supérfluos" (palavrinha difícil, mas que resumia bem nosso negócio).

Meu nome é Jong Yu, e hoje moro nessa cidade quente e grande. Aqui, passo os dias ajudando meus pais na loja, que eles nomearam de "Casa Jong", vendendo cadernos coreanos, capinhas de celular e muitas outras coisas, e tentando conhecer pessoas. Apesar de ter transferido meu curso superior para uma universidade daqui, as aulas ainda não começaram.

Uma das ajudantes que meus pais contrataram, Ariela, me dá dicas de lugares para conhecer na cidade. Apesar disso, nunca saio com ela porque seu namorado é ciumento demais. Fiz uma lista do que devia conhecer: Dragão do Mar; Praça Portugal; Ponte Metálica; Beira Mar; restaurantes da Varjota; Beach Park. Depois de pesquisar sobre os lugares, comecei pelo primeiro da lista. O Dragão do Mar era um lugar bastante cheio. As pessoas falavam o tempo inteiro e eu não conseguia entender, mas sabia que estavam se divertindo. Percebi que o português que eu sabia era péssimo para ser usado socialmente e que eu precisava, urgentemente, melhorar isso.

Pedi ajuda à Ariela, até então minha única amiga, e ela começou a perguntar sobre meus pontos fortes do português. Contei para ela que gostava das músicas e dos livros, mas que precisava de um dicionário para me guiar A ideia que ela teve me iluminou. "Por que você não procura uns livros por aqui? Tem uma livraria linda, com um espaço ótimo, que você pode ir, ler e escolher algo para comprar."

Animado, tirei da mala minha bolsa de couro à tira colo, o bilhete único recém carregado e desci do ônibus numa avenida chamada "Dom Luís". A livraria se chamava "Cultura", e tinha, por fora, um ar futurista. Gostei. Para entrar, você precisava andar em uma escada rolante.

Com o ambiente climatizado, era impossível sentir o tempo passar. Comecei olhando a sessão infantil. Muitas coisas coloridas, livros com dispositivos eletrônicos, revistas para pintar. Sentei em uma grande almofada e, com meu dicionário apoiado nas coxas, comecei a ler uma história chamada "Chapeuzinho Amarelo". O escritor era um homem conhecido até fora do Brasil, chamado Chico Buarque. A história tinha desenhos lindos e falava sobre uma menina muito medrosa.

Levantei e resolvi olhar outras sessões. Depois de algumas estantes havia um café. Sentei e comi alguma coisa com chocolate, mas nunca consigo lembrar o nome dos pratos aqui no Brasil. Lembro de achar bem doce e depois pedir uma Coca. Depois disso, poucas pessoas estavam naquele andar. Resolvi subir e vi vários cds. Música internacional, nacional e uma série de dvds. Não sei quanto tempo passei olhando tudo e desvendando os títulos, mas, depois, encontrar um lugar para sentar foi um alívio.

Talvez eu estivesse com uma expressão muito estranha àquele ponto, porque ele chegou com um ar de preocupação. "Boa noite, está precisando de algo?" Mas, como de costume, não entendi nada. Ele pareceu ainda mais preocupado e repetiu. Falei que estava tudo bem e, pelo meu sotaque, ele logo entendeu do que se tratava.
- De onde você é?
- Sou da Coreia do Sul
- Que legal! Está aqui há quanto tempo?
- Cheguei no mês passado, ainda falo pouco português
- Mas sua pronúncia é muito boa! Acredito que o problema seja a compreensão.
- Isso mesmo... (ele tinha que repetir várias vezes para que eu pudesse entender)
- E como posso te ajudar?
- Quero ler algo que me ajude a entender melhor o português, mas estou com dificuldades...
- Vem comigo, vou te mostrar uma sessão que talvez pareça familiar

Ele usava uma calça preta, camiseta branca e um avental (era o uniforme). Tinha o cabelo liso preso com uma liga e usava óculos. A voz era grossa, mas gentil. Me levou para uma estante onde eu pude reconhecer alguns desenhos. eram mangás! Eles tinham shoujos, alguns dos quais eu, inclusive, já tinha lido. Fiquei bem aliviado e sentei no chão para escolher. Ele sorriu e disse "Espero que você se dê bem por aqui! Qualquer coisa, é só me procurar. Estou sempre aqui." Depois saiu. Tentei ler seu nome no crachá, mas fui desastroso. Não entendi.

Muito feliz com meus mangás, saí da loja e já estava tudo escuro. Me avisaram sobre Fortaleza ser uma cidade perigosa, mas eu resolvi não pensar muito nisso. Fui para a parada de ônibus e em meia hora cheguei em casa. Meus pais tinham comprado o jantar em um lugar perto da nossa loja, mas era tudo muito doce. Fui para o quarto e comecei a ler o primeiro capítulo de Lovely Complex.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Eu acredito em um amor que seja sinônimo de liberdade. Não é amor aquilo que prende, abafa, corta asas. 

Perfumada, deu um beijo de despedida "volta logo" e saiu. Gostava de andar a pé depois que a chuva passava porque o ar estava sempre mais fresco. Pensou no que faríam juntos para o jantar. Entrou no ônibus.

Durante o caminho, viu um par de olhos e se sentiu apaixonada. Admirou, curtiu o sonho, chegou seu ponto, desceu.

No trabalho, recebeu uma cliente. Linda voz, cabelo bem cuidado. Com sorrisos se apaixonou, guardou o cheiro, foi para uma reunião.

Do outro lado, com o cabelo penteado e a barba com uma leve camada de óleo, pensou em que filme assistiriam depois do jantar. Abriu a porta do banco para alguém que parecia estar perdido. Recebeu um sorriso, se apaixonou. Guardou no bolso e saiu.

Lembrou de almoçar só depois das duas e correu para comprar um sanduíche. Foi atendido por mãos rápidas e uma piscadela descobriu um ardor no coração. "Paixão", pensou.

Sete horas. De volta em casa, paixões passavam pelos dedos e se transformavam em carícias, olhares, abraços. Liberdade e amor (guardavam os escritos nas alianças).

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A história

Eu sempre pensei que a tristeza me fizesse escrever, como algum tipo de caneta que eu recarregava com lágrimas não derramadas, ou algo parecido. No entanto, depois que as lágrimas deixaram de vir por qualquer motivo, percebi uma necessidade de voltar e levar algo adiante.

Voltei depois de passar quase um ano sem pensar em escrever dessa maneira, por motivos variados como o excesso de trabalho, dor nos ombros, preguiça e ansiedade.

Em 2013 fui diagnosticada com ansiedade generalizada, coisa que só fui entender em 2015. Uma série de acontecimentos fez com que eu me sentisse a última folha seca de uma árvore velha e doente, até o dia que caí.

De acordo com o blog do Doutor Drauzio Varella, "o transtorno da ansiedade generalizada (TAG), segundo o manual de classificação de doenças mentais (DSM.IV), é um distúrbio caracterizado pela “preocupação excessiva ou expectativa apreensiva”, persistente e de difícil controle, que perdura por seis meses no mínimo e vem acompanhado por três ou mais dos seguintes sintomas: inquietação, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, tensão muscular e perturbação do sono." 

Para mim, a ansiedade era um monstro enorme que me esmagava, sugava minhas forças, minha energia, alegria e vontade de viver. Em alguns momentos eu só queria realmente estar morta. Entretanto, ter conhecimento sobre essa doença me fez entender muitas coisas do passado, como porque eu chorava sem motivo, não conseguia me concentrar para estudar, passava mal antes de fazer provas ou ir para festas e como não conseguia respirar quando certas coisas aconteciam. Muitas vezes, fui para hospitais, fiz exames e os médicos não sabiam explicar o que eu tinha.

Quando fui diagnosticada, a psicóloga era bem jovem e isso me incomodava. Ela dizia que o que eu tinha era "a nova depressão" e que eu deveria continuar indo vê-la. Acontece que não fiquei satisfeita com ela e parei de ir. Um momento terrível da minha vida chegou logo depois disso e me vi envolta em uma situação que me deixaria com cicatrizes mentais para sempre, ou, pelo menos, durante um bom tempo (porque elas ainda não sumiram).

Depois de uma pequena libertação, procurei outros médicos e iniciei um tratamento. Eu estava com dificuldade para estudar, sair de casa e me relacionar com as pessoas. Tudo era motivo para eu ter um ataque e achar que ia morrer. Precisei tomar um remédio com tarja preta, minha primeira droga pesada. Rivotril era meu melhor amigo, não andávamos separados e eu temia pelo dia em que ele não estivesse mais comigo. No entanto, ele não me fazia bem, só me fazia dormir muito e me deixava fora do ar por alguns momentos. Algum dia, não lembro como, entendi que precisava de algo que realmente me ajudasse, e procurei ajuda para me livrar dele.

Conheci uma médica que me recebeu da melhor maneira possível (e hoje tem um lugar cheio de gatos, almofadas e chocolates, no meu coração) e ouviu tudo o que eu precisava dizer. Mesmo não sendo psicóloga ela me acolheu. Disse que eu precisava de tratamento com remédios, e que tudo ia melhorar. Acreditei. Ela me passou um antidepressivo e saí do consultório muito confiante. Tentei marcar uma consulta de retorno e as atendentes disseram que não sabiam como iam fazer, porque a médica estava grávida e logo ia entrar de licença.

Voltei para casa e, no dia seguinte, comecei a tomar o remédio. Ele me derrubou. Eu nunca tinha me sentido tão mal na vida. Procurei ajuda em fóruns online e as pessoas me diziam para aguentar e continuar tomando, que eu ia acostumar. Minha mãe havia viajado e meu pai estava trabalhando, eu passei 4 dias praticamente sozinha em casa, levantando só para comer e ir ao banheiro. Resolvi parar. Experimentei tratamentos alternativos, fazendo exercícios e coisas espirituais. Por um tempo, achei que as coisas estavam se acalmando, mas eu ainda era a pessoa triste que lembrava de sempre ter sido.

Uma nova fase da minha vida começou e entrei para o mercado de trabalho. Não seria fácil trabalhar e estudar ao mesmo tempo, mas eu achava que isso ocuparia minha mente e me faria esquecer da ansiedade. Pelo contrário. Piorei muito e já não queria sair de casa. Achava que ia morrer dentro do ônibus, tomando banho, conversando com meus amigos e trabalhando. Tentei marcar consulta com a médica, mas ela ainda estava de licença.

Procurei outro médico e expliquei que eu não queria mais tomar Rivotril, não tinha conseguido me livrar dele, não me sentia confiante. O médico não me ouviu e me empurrou uma receita de mais 4 meses com aquele remédio. Cheguei a pensar que passaria o resto da vida assim.

O ano de 2016 chegou e eu só desejei conseguir viver tudo com calma, sem desastres. Pensei em procurar terapias alternativas novamente, mas minha cabeça dizia que a religião não poderia me ajudar. Liguei para o consultório da médica que eu havia gostado e ela, finalmente, estava atendendo novamente.

Ela me recebeu com muita calma e perguntou sobre tudo o que eu tinha me queixado no ano passado. Percebi que algumas coisas já haviam se resolvido, mas minha cabeça estava cada vez mais confusa. Eu não conseguia mais estudar, meu desempenho no trabalho estava péssimo e as crises eram constantes. Ela me passou um remédio mais fraco, a fluoxetina, e aceitei começar um novo tratamento.

Com um mês de fluoxetina minha mente já não tinha a neblina de antes. Eu conseguia pensar, estudar e tomar decisões corretamente. Também conseguia lidar melhor com as pessoas. Voltei para a médica e ela me parabenizou pelo desempenho. Disse que logo eu poderia experimentar viver normalmente e sem tomar nenhuma droga. No momento, estou esperando por essa vida.

Hoje, não sinto mais a tristeza que foi minha companheira por 10 anos ou mais. Consegui ver com clareza todos os pontos que vivi que me fizeram ter transtorno de ansiedade, ou piorá-lo. Tenho consciência da doença que tenho e sei que um dia vou conseguir controlá-la. Não tomo Rivotril há 3 meses e me sinto outra pessoa. Consigo acordar feliz e manter a felicidade por um período longo, e ela não é substituída por tristeza, mas sim por um novo tipo de sentimento que descobri. Ainda não sei como chamá-lo, mas é algo próximo da aceitação de si mesmo.

Decidi escrever isso tudo porque, durante esse período, vivi coisas horríveis e conheci pessoas que passam e passaram pelo mesmo que eu, ou pior. Consegui encontrar o caminho do controle e isso fez toda a diferença para a pessoa que sou hoje. Me sinto uma pessoa nova e me descubro cada vez mais. Hoje, em 2016, consigo ouvir músicas tristes e não ser invadida por qualquer sentimento ruim. Acredito que consegui juntar os pedaços de mim e, aos poucos, tudo vai se completando na minha cabeça.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Queria entender teu risco,
puxar teu fio,
desfazer teu nó.

Cobrir o contorno das tuas ideias,
encontrar tua falha,
fechar tuas abas
e enlaçar tuas dobras
para me fazer presente:
pronto, aqui estou.

Entregar o que sempre foi teu,
me fazer.
Buscar teu eu para mim,
te deter.

Trançar meu eu ao teu redor,
fechar teus olhos pro que te faz nó
e nos fazer existência, enfim.

Pôr minhas mãos no que eram as tuas e,
enquanto houver o tato da carne crua,
aceitar que só ficamos juntos para ter o fim.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Era noite, depois das nove, e eu queria muito dormir. Arrumei meu quarto e fui para o banheiro trocar de roupa e escovar os dentes. Enquanto escovava, ouvi alguém me chamar. Abri a porta e perguntei o que minha mãe queria, mas ela disse que não tinha me chamado.
De volta ao quarto, pensei em não ligar a televisão e só deitar, mas estava em meio a algum diálogo, pelo celular, então apaguei a luz e deitei, prestando atenção apenas ao celular. No escuro, meu quarto parece ficar maior.
A conversa durou algum tempo, até que nos demos "boa-noite" e baixei o celular para colocar para carregar e começar a dormir. Acontece que eu vi. Deveria ter mais ou menos um metro e se movia como se fosse arrastada pelo vento. Era uma menina, uma criança. Tinha os olhos nos meus e senti que esperava alguma coisa de mim. Nunca suportei esse tipo de esperança. Minha única reação foi levantar e pegar o essencial: celular, carregador, lençol e travesseiro. Corri para o quarto da minha mãe enquanto eu sentia o olhar da criança na minha nuca.
Enquanto colocava, novamente, o celular para carregar eu sentia meu corpo travar e achei que estava quase sendo pega pela morte ou o seja lá que tipo de destino aquela menina tinha nas mãos para me dar, naquela noite, e me apressei para deitar na cama o mais rápido possível.
Coloquei o travesseiro em cima da cabeça e tentei apagar todos os vestígios possíveis de medo que meu corpo tentava transformar em suor.
Alguns minutos depois, minha mãe perguntou se nosso gato também estava na cama e respondi que não. No outro dia, logo depois que acordamos, recebemos a notícia de que alguém da família tinha morrido e, então, minha mãe confessou que sentiu uma pessoa no quarto, na noite anterior, além de nós duas.

Demorei 3 dias para conseguir dormir sozinha novamente.

terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre pessoas em hospitais

Algumas muitas vezes por ano eu apareço pelos hospitais de Fortaleza, tomo injeções, espero umas mil horas, sinto frio, enfim. Acontece que, raramente, acontecem coisas que me fazem agradecer estar lá para ter presenciado. Hoje foi um desses dias.
Enquanto eu esperava, na recepção, para ser atendida, uma senhora conversava com o atendente, afirmando que estava passando mal e que queria fazer logo o exame dela.
- Certo, senhora, me dê o cartão do seu plano e a sua identidade.
- Não trouxe a identidade, ficou em casa.
- A senhora não sabe seu rg decorado?
- Não, não sei.
- E o cpf a senhora trouxe?
- Não ando com cpf.
- Mas a senhora não sabe decorado?
- Ah, sei sim.
- Certo, então me diga.
- Mas eu não vou dizer
- E como a senhora espera que eu faça seu cadastro sem algum documento?
- O cpf é sigiloso, não vou falar aqui pra todo mundo ouvir.
- Certo, senhora, então anote pra mim.

Ela anotou, mas escreveu tudo de uma maneira que o rapaz não conseguiu entender. Só deu certo depois que ela reescreveu pela quinta ou sexta vez, então ela saiu do balcão e sentou na primeira cadeira que encontrou.
Minha vez ainda não tinha chegado quando a ouvi falando com o rapaz da radiologia:
- Eu tô passando mal, não vão me atender?
- Qual o exame?
- Raio-x
- Senhora, não estamos realizando raio-x aqui hoje. A máquina não está na sala.
- Como assim? Então porque abriram meu atendimento?

Ela levantou e foi falar com o mesmo rapaz que a tinha atendido na recepção:
- Olha, eu quero cancelar meu atendimento.
- Por que, senhora?
- Porque não tão fazendo raio-x e eu tô aqui passando mal, isso é um descaso.
- Certo, senhora, mas fazer ou não o raio-x não ia deixar a senhora melhor ou pior. É só um exame.
- Que falta de consideração, quero cancelar o atendimento, vou para outro hospital. Não posso fazer meus outros exames aqui?
- A senhora está com a requisição?
- Deixei no carro
- Então tem que ir buscar...
- Não, quero só cancelar o atendimento.
- Certo, vou precisar da sua carteirinha.

Ela cancelou o atendimento, pegou sua chave (enrolada em durex), seu talão de cheques e sua bolsa e saiu do hospital. No fundo do coração de todos ali presentes ouviu-se aplausos.

E assim encerra-se a história da senhorinha mais enjoada e sem educação, com os profissionais que iriam trabalhar para ela, que eu já conheci.

domingo, 1 de março de 2015

O homem do infinito

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Abriu os olhos e viu que não estava em sua cama, ou em cama alguma, apenas flutuava. Era um infinito, uma mistura de vazio e matéria, uma solidão que ele nunca havia experimentado. Viu-se viajando pelo espaço. Passou pelos planetas em chamas, o cinturão de asteroides, viu o brilho de estrelas já mortas, sentiu o cheiro do que não soube explicar, viu tudo o que jamais poderia explicar ou entender e, então, ouviu a respiração cansada daquele outro ser. Imediatamente quis voltar para casa, mas ele podia ver sua casa dali e aquele não era o lugar para o qual ele deveria correr, então viu que não conseguia correr e apenas fechou os olhos.

Apertou o máximo que pôde, sentiu as rugas de sua testa arderem, sentiu dor, perdeu o controle dos músculos e, então, viu-se encarando o que antes ele achou que não poderia. Era um ser humano, sim, porém tinha um brilho apagado, uma dor visível, a pele seca, escamando, as cores dos olhos estavam misturadas: globo ocular, iris e pupila eram um só tom de preto, grafite, talvez. As mãos seguravam um tipo de manivela, mas não parecia haver distinção de onde começavam os membros e onde começava o metal. Os cabelos eram longos, misturados à cor do infinito.

Quando retomou o controle de seus movimentos, viu que o ser também o encarava, de boca aberta, mas nenhum som saía, apenas o da respiração cansada. Ele tinha consciência de que estavam, os dois, no vazio, mas ainda sim sentia que conseguia respirar. Resolveu que deveria perguntar algo, já que dali não sairia.

- Quem é você?
- Não deveriam haver pessoas aqui, neste lado da dimensão.
- Eu não sei porque estou aqui, mas e você?
- Fui condenado, estarei aqui até você morrer e até muito depois disso.
- Condenado? Por quem?
- Por Deus. Eu não sabia, mas o prejudiquei. Atrapalhei seus planos, eu... Eu tinha conhecimento demais,
- Por Deus? Como assim?
- Eu tentei parar o tempo. Parei, na verdade.
- Isso é possível?
- Ah, sim. Muitas pessoas já conseguiram e
- "Pessoas"? Você é uma pessoa?
- Eu sou, eu era. Como eu dizia... Muitas pessoas já conseguiram, a Terra guarda esse conhecimento em livros, escrituras, pinturas em cavernas... Mas poucas pessoas se atrevem, porque a maioria foi punida com a morte.
- Mas... Não entendo. O que acontece quando alguém para o tempo?
- Deus perde o controle sobre as coisas, então coisas horríveis acontecem na Terra.
- Nunca imaginei que fosse assim. Deus não tem o controle de tudo?
- Ele tem, mas o tempo é à parte.
- Que tipo de coisas horríveis?
- Catástrofes ambientais, pessoas que cometem atrocidades, como Hitler.
- Entendi... E pra que alguém para o tempo?
- Para se livrar de algo. A mulher que eu amava estava presa, foi raptada por um rei e eu não tinha como salvá-la, até descobrir como parar o tempo. Quando consegui, tirei-a da masmorra, levei-a para uma ilha de clima bom e boas condições de vida e depois descongelei o tempo, para me juntar a ela, mas vi que escolhi a hora errada para isso. Nunca consegui voltar ao encontro dela.
- Por que?
- Porque fui condenado. Vim parar aqui.
- O que é essa manivela?
- É assim que mantenho o tempo funcionando. Faço a manutenção da translação e rotação da Terra.
- Entendi.
 - Olha, acho que você está sumindo...
- Devo estar acordando, sinto meus braços formigarem...
- Então adeus, meu caro.
- Espere! Me diga... Você disse que escolheu a hora errada para parar o tempo... Que hora foi essa?
- Foi quando o filho dele foi condenado. O filho de Deus.
- Não acredito...
- As coisas na Terra deveriam estar melhores, mas os homens mataram o filho dele porque ele não estava lá, não estava com o controle das coisas. Foi culpa minha. Por isso estou aqui. Avise a eles para não pararem mais as horas, explique, diga para não...

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Elas lhe disseram que foram três dias de febre e devaneios. Ele levantou, estava muito suado, as mãos vermelhas, caminhou até a janela e olhou o mundo. Acreditou, então, no que o homem do infinito havia lhe dito. Desejou não ter acordado.