terça-feira, 25 de agosto de 2015

Queria entender teu risco,
puxar teu fio,
desfazer teu nó.

Cobrir o contorno das tuas ideias,
encontrar tua falha,
fechar tuas abas
e enlaçar tuas dobras
para me fazer presente:
pronto, aqui estou.

Entregar o que sempre foi teu,
me fazer.
Buscar teu eu para mim,
te deter.

Trançar meu eu ao teu redor,
fechar teus olhos pro que te faz nó
e nos fazer existência, enfim.

Pôr minhas mãos no que eram as tuas e,
enquanto houver o tato da carne crua,
aceitar que só ficamos juntos para ter o fim.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Era noite, depois das nove, e eu queria muito dormir. Arrumei meu quarto e fui para o banheiro trocar de roupa e escovar os dentes. Enquanto escovava, ouvi alguém me chamar. Abri a porta e perguntei o que minha mãe queria, mas ela disse que não tinha me chamado.
De volta ao quarto, pensei em não ligar a televisão e só deitar, mas estava em meio a algum diálogo, pelo celular, então apaguei a luz e deitei, prestando atenção apenas ao celular. No escuro, meu quarto parece ficar maior.
A conversa durou algum tempo, até que nos demos "boa-noite" e baixei o celular para colocar para carregar e começar a dormir. Acontece que eu vi. Deveria ter mais ou menos um metro e se movia como se fosse arrastada pelo vento. Era uma menina, uma criança. Tinha os olhos nos meus e senti que esperava alguma coisa de mim. Nunca suportei esse tipo de esperança. Minha única reação foi levantar e pegar o essencial: celular, carregador, lençol e travesseiro. Corri para o quarto da minha mãe enquanto eu sentia o olhar da criança na minha nuca.
Enquanto colocava, novamente, o celular para carregar eu sentia meu corpo travar e achei que estava quase sendo pega pela morte ou o seja lá que tipo de destino aquela menina tinha nas mãos para me dar, naquela noite, e me apressei para deitar na cama o mais rápido possível.
Coloquei o travesseiro em cima da cabeça e tentei apagar todos os vestígios possíveis de medo que meu corpo tentava transformar em suor.
Alguns minutos depois, minha mãe perguntou se nosso gato também estava na cama e respondi que não. No outro dia, logo depois que acordamos, recebemos a notícia de que alguém da família tinha morrido e, então, minha mãe confessou que sentiu uma pessoa no quarto, na noite anterior, além de nós duas.

Demorei 3 dias para conseguir dormir sozinha novamente.

terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre pessoas em hospitais

Algumas muitas vezes por ano eu apareço pelos hospitais de Fortaleza, tomo injeções, espero umas mil horas, sinto frio, enfim. Acontece que, raramente, acontecem coisas que me fazem agradecer estar lá para ter presenciado. Hoje foi um desses dias.
Enquanto eu esperava, na recepção, para ser atendida, uma senhora conversava com o atendente, afirmando que estava passando mal e que queria fazer logo o exame dela.
- Certo, senhora, me dê o cartão do seu plano e a sua identidade.
- Não trouxe a identidade, ficou em casa.
- A senhora não sabe seu rg decorado?
- Não, não sei.
- E o cpf a senhora trouxe?
- Não ando com cpf.
- Mas a senhora não sabe decorado?
- Ah, sei sim.
- Certo, então me diga.
- Mas eu não vou dizer
- E como a senhora espera que eu faça seu cadastro sem algum documento?
- O cpf é sigiloso, não vou falar aqui pra todo mundo ouvir.
- Certo, senhora, então anote pra mim.

Ela anotou, mas escreveu tudo de uma maneira que o rapaz não conseguiu entender. Só deu certo depois que ela reescreveu pela quinta ou sexta vez, então ela saiu do balcão e sentou na primeira cadeira que encontrou.
Minha vez ainda não tinha chegado quando a ouvi falando com o rapaz da radiologia:
- Eu tô passando mal, não vão me atender?
- Qual o exame?
- Raio-x
- Senhora, não estamos realizando raio-x aqui hoje. A máquina não está na sala.
- Como assim? Então porque abriram meu atendimento?

Ela levantou e foi falar com o mesmo rapaz que a tinha atendido na recepção:
- Olha, eu quero cancelar meu atendimento.
- Por que, senhora?
- Porque não tão fazendo raio-x e eu tô aqui passando mal, isso é um descaso.
- Certo, senhora, mas fazer ou não o raio-x não ia deixar a senhora melhor ou pior. É só um exame.
- Que falta de consideração, quero cancelar o atendimento, vou para outro hospital. Não posso fazer meus outros exames aqui?
- A senhora está com a requisição?
- Deixei no carro
- Então tem que ir buscar...
- Não, quero só cancelar o atendimento.
- Certo, vou precisar da sua carteirinha.

Ela cancelou o atendimento, pegou sua chave (enrolada em durex), seu talão de cheques e sua bolsa e saiu do hospital. No fundo do coração de todos ali presentes ouviu-se aplausos.

E assim encerra-se a história da senhorinha mais enjoada e sem educação, com os profissionais que iriam trabalhar para ela, que eu já conheci.

domingo, 1 de março de 2015

O homem do infinito

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Abriu os olhos e viu que não estava em sua cama, ou em cama alguma, apenas flutuava. Era um infinito, uma mistura de vazio e matéria, uma solidão que ele nunca havia experimentado. Viu-se viajando pelo espaço. Passou pelos planetas em chamas, o cinturão de asteroides, viu o brilho de estrelas já mortas, sentiu o cheiro do que não soube explicar, viu tudo o que jamais poderia explicar ou entender e, então, ouviu a respiração cansada daquele outro ser. Imediatamente quis voltar para casa, mas ele podia ver sua casa dali e aquele não era o lugar para o qual ele deveria correr, então viu que não conseguia correr e apenas fechou os olhos.

Apertou o máximo que pôde, sentiu as rugas de sua testa arderem, sentiu dor, perdeu o controle dos músculos e, então, viu-se encarando o que antes ele achou que não poderia. Era um ser humano, sim, porém tinha um brilho apagado, uma dor visível, a pele seca, escamando, as cores dos olhos estavam misturadas: globo ocular, iris e pupila eram um só tom de preto, grafite, talvez. As mãos seguravam um tipo de manivela, mas não parecia haver distinção de onde começavam os membros e onde começava o metal. Os cabelos eram longos, misturados à cor do infinito.

Quando retomou o controle de seus movimentos, viu que o ser também o encarava, de boca aberta, mas nenhum som saía, apenas o da respiração cansada. Ele tinha consciência de que estavam, os dois, no vazio, mas ainda sim sentia que conseguia respirar. Resolveu que deveria perguntar algo, já que dali não sairia.

- Quem é você?
- Não deveriam haver pessoas aqui, neste lado da dimensão.
- Eu não sei porque estou aqui, mas e você?
- Fui condenado, estarei aqui até você morrer e até muito depois disso.
- Condenado? Por quem?
- Por Deus. Eu não sabia, mas o prejudiquei. Atrapalhei seus planos, eu... Eu tinha conhecimento demais,
- Por Deus? Como assim?
- Eu tentei parar o tempo. Parei, na verdade.
- Isso é possível?
- Ah, sim. Muitas pessoas já conseguiram e
- "Pessoas"? Você é uma pessoa?
- Eu sou, eu era. Como eu dizia... Muitas pessoas já conseguiram, a Terra guarda esse conhecimento em livros, escrituras, pinturas em cavernas... Mas poucas pessoas se atrevem, porque a maioria foi punida com a morte.
- Mas... Não entendo. O que acontece quando alguém para o tempo?
- Deus perde o controle sobre as coisas, então coisas horríveis acontecem na Terra.
- Nunca imaginei que fosse assim. Deus não tem o controle de tudo?
- Ele tem, mas o tempo é à parte.
- Que tipo de coisas horríveis?
- Catástrofes ambientais, pessoas que cometem atrocidades, como Hitler.
- Entendi... E pra que alguém para o tempo?
- Para se livrar de algo. A mulher que eu amava estava presa, foi raptada por um rei e eu não tinha como salvá-la, até descobrir como parar o tempo. Quando consegui, tirei-a da masmorra, levei-a para uma ilha de clima bom e boas condições de vida e depois descongelei o tempo, para me juntar a ela, mas vi que escolhi a hora errada para isso. Nunca consegui voltar ao encontro dela.
- Por que?
- Porque fui condenado. Vim parar aqui.
- O que é essa manivela?
- É assim que mantenho o tempo funcionando. Faço a manutenção da translação e rotação da Terra.
- Entendi.
 - Olha, acho que você está sumindo...
- Devo estar acordando, sinto meus braços formigarem...
- Então adeus, meu caro.
- Espere! Me diga... Você disse que escolheu a hora errada para parar o tempo... Que hora foi essa?
- Foi quando o filho dele foi condenado. O filho de Deus.
- Não acredito...
- As coisas na Terra deveriam estar melhores, mas os homens mataram o filho dele porque ele não estava lá, não estava com o controle das coisas. Foi culpa minha. Por isso estou aqui. Avise a eles para não pararem mais as horas, explique, diga para não...

Não era normal acordar assim, no meio da noite, mas acordou. Elas lhe disseram que foram três dias de febre e devaneios. Ele levantou, estava muito suado, as mãos vermelhas, caminhou até a janela e olhou o mundo. Acreditou, então, no que o homem do infinito havia lhe dito. Desejou não ter acordado.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Flores do mal




Chegou aqui em casa e pediu chá. Sempre preferi que me dissessem o que queriam, ao invés de esperarem que eu adivinhasse ou fizesse uma lista do que tinha a oferecer. Ela usava um poncho vermelho e um vestido cinza (os ponchos estão na moda por aqui, no meu tempo de agora) e uns sapatinhos pretos. Trouxe consigo um livro velho, cheio de figuras. Era um daqueles que você e eu usamos no colégio, muito texto, exercícios, ilustrações e fotografias. Perguntou se eu ainda escrevia e respondi que não,  "Guardo tudo aqui, menina" e apontei para a minha cabeça. 
´
Depois que tomamos chá, perguntei o que tinha acontecido. Ela me contou que já não usava aquele livro, mas que ainda lembrava de tudo. Me disse que estudou a metade de sua vida em um colégio pequeno, com poucos alunos e que todos se conheciam. Ela era muito apegada aos professores e, em uma aula de literatura, seu professor preferido a apresentou a Charles Baudelaire e mostrou, naquele livro, o seu "Autorretrato". 

Ela fez questão de lavar a pouca louça que sujamos, mas me pediu para ficar junto dela, porque "ficar sozinha não era algo confortável".

Fiquei olhando para a figura do "Autorretrato" e ela me perguntou se eu achava familiar. Respondi que não. "Eu nunca tinha ouvido falar dele, do Baudelaire, mas... Coloquei os olhos nessa pintura e senti que sabia da existência daquilo desde sempre." Depois de ouvir isso, perguntei o que ela realmente queria me contar e tentei absorver completamente as palavras.

"Eu morava com meus pais, claro, porque deveria ter só uns 13 ou 14 anos. Eles sempre iam dormir muito cedo e eu ficava deitada, na sala, vendo televisão. Na maioria das vezes, meu pai adormecia deitado na rede, e eu ficava logo abaixo, no sofá. Também sempre tive medo do escuro e, talvez por sempre procurar ver coisas onde a luz não me deixava enxergar nada, um dia encontrei aquela figura do livro. Não uma pessoa, um fantasma, mas a pintura. As pinceladas, os riscos e os olhos marcantes. Aquele ser, que a pintura revelou, apareceu pra mim, no meu antigo apartamento, durante muito tempo. Eu não sei porque, ele nunca me falou nada, só estava ali e eu sentia sua presença. Eu não conseguia me mexer, quando ele aparecia, nem falar com ele. Éramos nós dois, tarde da noite, numa cidadezinha qualquer, sem explicação alguma. Depois de um tempo ele deixou de aparecer. Vim aqui para pedir que você guarde o livro para mim."

É claro que eu aceitei ficar com o livro, era algo tão simples, não é? Depois de tudo o que sempre aconteceu na minha vida guardar um livro não seria um problema. 
- Queria pedir só mais uma coisa.
- Diga, meu bem.
- Se ele aparecer para você...
- Você sabe que isso é possível, porque eu lido com esse tipo de coisa desde que nasci e
- Se ele aparecer diga que eu sinto falta dele, diga para voltar a me encontrar, porque passo as noites sozinha, desde então.
- Eu, eu direi, sim, minha querida. 

Nos abraçamos e ela se foi. Ele nunca apareceu para mim. Não até agora.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Flusser me disse que o homem não pertence a lugar algum, que se sente um estrangeiro em qualquer situação. Não consegue se adaptar, sente uma eterna falta de algo que ele nunca vai encontrar. Ele falava sobre mim, olhando para mim. Recolheu um fio do meu cabelo e disse que o "homem" era eu. Falei que não entendia, porque eu nunca entendia nada, mas sempre foi assim, ele não explicava e eu entendia alguns anos depois.

 "Marília, você vai se sentir estrangeira em qualquer lugar que for, vai ser forasteira a vida inteira", lembro assim, até escuto sua voz.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Não sei que horas eram, porque eu não conseguia me mexer. Sei que acordei e sabia que algo ia aparecer, que alguém ia aparecer. Meus olhos ardiam de sono, mas eu não conseguia voltar a dormir, porque sentia a presença do que quer que fosse e só esperava alguma luz aparecer em cima da minha escrivaninha, ao lado do meu velho computador. Eu sabia da luz porque aquilo no sonho tinha me feito acordar e tinha avisado que a luz apareceria. Me disse que era um santo e não tenho certeza se o nome que tenho na memória era o que me foi informado, no sonho, então não vou escrever aqui. Acontece que, por saber que era um santo, eu não deveria ter medo. Santos fazem coisas boas, por que tive medo? 
Meu medo não era do santo, em si, mas do que aconteceria comigo quando eu me desse conta do conhecimento que passaria a carregar. Sempre evitei saber demais, porque ter consciência demais sempre me assustou.Como se fosse uma pedra que eu tivesse que carregar e eu tivesse sempre preferido deixá-la em seu lugar, numa montanha ou caverna, ao invés de procurar meios para conseguir levá-la comigo a todo lugar. A alienação me acalantara todos esses anos, mas naquela noite o sussurro que me acordou ia colocar tudo a perder. 
Nenhuma luz estava acesa, meus pais dormiam e até o gato dormia. Eu estava sozinha, paralisada, esperando a tal luz aparecer. Resolvi pedir ajuda a quem sempre me ajudou em pesadelos: meu consciente religioso. Fechei os olhos e rezei. Rezei para me proteger do santo que eu, supostamente, estava "destinada" a ver. Converso com Deus através de orações, por ter feito catecismo e vivido sempre em um ambiente católico. Também tenho aquelas conversas de "Deus, se você achar que é bom pra mim, me permita conseguir tal coisa", mas naquela noite rezei o Pai Nosso, depois algumas Ave Marias (de olhos fechados) e consegui adormecer. Eu fugi do santo recorrendo a outros santos. Espero que um dia Deus (ou seja lá quem for) me perdoe por não querer carregar certas responsabilidades.